quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Economia Verde em Santa Catarina: muito discurso, pouca prática e mídia conivente



Por Míriam Santini de Abreu, jornalista

Os veículos de comunicação anunciaram de forma oficialesca o lançamento, em setembro, do documento intitulado “Uma abordagem preliminar da Economia Verde no estado de Santa Catarina”, nascido das entranhas do governo Jorginho Mello. São 36 páginas de estatísticas e lugares-comuns que mascaram, pelos mecanismos ideológicos, a realidade socioambiental catarinense.

O Jornal do Almoço, do grupo NSC/Globo, divulgou notícia em 18 de setembro [1] e limitou-se a reproduzir as informações do documento e entrevistar o secretário de Planejamento e o governador. Jorginho Mello disse que a intenção é remunerar os pequenos agricultores pelo que eles já preservam em suas propriedades, mantendo matas e mananciais. Destaco o trecho final da entrevista: “Nós somos um estado que cuidamos da natureza, mas a gente quer ter este ativo ao nosso favor para que a gente consiga daqui um pouco ter a capacidade de vender na bolsa de valores, enfim, e crédito de carbono". Os dados, finaliza a repórter, irão subsidiar políticas públicas relacionadas à preservação ambiental e à economia.

No mesmo dia, o Balanço Geral Florianópolis, do grupo ND/Record, também noticiou o levantamento entrevistando apenas o secretário de Planejamento, que fala sobre e estudo e informa a mudança, viabilizada pela reforma administrativa de Mello, de Secretaria de Estado do Meio Ambiente em Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde. 

Nos portais noticiosos dos grupos, a cobertura seguiu na mesma lógica, limitando-se às fontes do governo. Não encontrei uma boa reportagem com outras fontes para interpretar os dados, tensionar o discurso do governo e desvendar o que está atrás das estatísticas.

A dita economia verde foi apresentada em 2008 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e, em 2014, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mensurou a alocação de recursos nas atividades econômicas de acordo com a classificação delas na perspectiva da economia verde. Usando a metodologia da associação dos banqueiros é que o governo Jorginho Mello fez o estudo. Os dados divulgados afirmam, por exemplo, que 90% do agro catarinense é considerado “verde”.

Faço um recorte neste setor porque a Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira, 19, projeto de lei que regulamenta o mercado de carbono no Brasil e uma das críticas é justamente a exclusão de setores como o agropecuário. Assim, as emissões indiretas de dióxido de carbono e outros gases relacionados ao aquecimento global decorrentes da produção de insumos ou matérias-primas agropecuárias não serão consideradas para impor obrigações de contenção de emissão de gases. O agro pressionou, recorreu a subterfúgios e ficou de fora.

Quem fez, a meu pedido, uma análise sucinta e precisa foi o biólogo, ambientalista e professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), João de Deus Medeiros, fonte indispensável para quem pesquisa o assunto no estado. Transcrevo-a seguir (em itálico):

Esse documento é uma peça de propaganda completamente descolado da realidade.

SC ainda mantém termoelétrica movida a carvão, com subsídio do governo federal, não controla o desmatamento (veja os dados da operação Mata Atlântica em Pé [3], conduzida em setembro), mais de 90% dos registros de CAR (Cadastro Ambiental Rural) não foram avaliados pelo IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina), os altos níveis de utilização de agrotóxicos persistem, os recursos hídricos superficiais, em grande proporção, estão com algum grau de comprometimento, a exploração do Aquífero Guarani segue sem maior critério e seu nível já registra baixa evidente e empresas de silvicultura avançam sobre Campos de Altitude da Mata Atlântica, se valendo de um conceito “singular” trazido pelo Código Estadual do Meio Ambiente.

A propósito, se o estado estivesse assim tão “verde” por que razão toda essa pressão para atropelar a legislação nacional de proteção ambiental? Afinal foi isso que fizeram com a aprovação do Código Estadual do Meio Ambiente [2022], o qual inclusive já teve diversos dispositivos declarados inconstitucionais pelo TJSC [Tribunal de Justiça de Santa Catarina].

Adicionalmente, esse material foi produzido sem qualquer debate ou submetido a alguma avaliação crítica.

Um documento que sequer mostra-se estratégico para “vender” uma imagem mais positiva do Estado. É tão exagerado que não permite um mínimo de credibilidade.

Sem surpresas, mera peça de “greenwashing” muito mal produzida. O Corredor das Nascentes foi publicado no apagar das luzes do governo Moisés; atual governo cogitou inclusive a sua revogação. O dado concreto é que, no caso desse Corredor [citado no documento], nenhuma medida concreta para implementação do mesmo foi tomada até o momento.

O documento até menciona o Inventário Florístico Florestal de SC, mas omite que ele destaca que todos os remanescentes florestais nativos no estado estão altamente empobrecidos. São, na maioria dos casos, florestas secundárias com baixa diversidade de espécies.

Mas o documento ainda insiste no estímulo ao “manejo florestal”, não citando que isso conflita com a Lei da Mata Atlântica. O dispositivo que tentaram implantar no Código Estadual (Projeto Conservacionista da Araucária) para “legalizar” o manejo florestal já foi declarado inconstitucional por decisão do TJSC.

***

Com a aprovação do projeto de lei que regulamenta o mercado de carbono no Brasil e a fala do governador assumindo a possibilidade de venda de créditos de carbono na bolsa de valores, o assunto exige reportagens de fôlego, do tipo que não tem mais lugar e espaço nos grupos de mídia de Santa Catarina.


Veja o documento aqui: https://www.semae.sc.gov.br/wp-content/uploads/2024/09/Revista-Economia-Verde-DIGITAL.pdf 

[1]https://globoplay.globo.com/v/12933261/

[2]https://www.youtube.com/watch?v=K4aZgxu5tC4

[3]https://www.mpsc.mp.br/noticias/balanco-final-operacao-mata-atlantica-em-pe-identifica-mais-de-17-mil-hectares-de-desmatamento-ilegal-

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

A crise climática na cobertura jornalística das catástrofes em Valência e Porto Alegre




Por Míriam Santini de Abreu 

“Devastadora”, “trágica”, “catastrófica” e “apocalíptica” são adjetivos que a imprensa espanhola está usando para se referir aos efeitos da já caracterizada “maior chuva do século”, que devastou principalmente a comunidade de Valência. A imprensa brasileira também tem se utilizado dos mesmos adjetivos na cobertura. Postagens nas redes sociais estão divulgando notícias vindas do país europeu e associando o fato com as enchentes de abril/maio no Rio Grande do Sul. É oportuno, portanto, analisar a cobertura jornalística espanhola para investigar como estão posicionados os debates sobre a crise climática e a relação com a violenta DANA (depressão isolada de alto nível), fenômeno provocador das violentas chuvas e que ocorre quando o ar frio desce sobre as águas quentes do Mar Mediterrâneo. 

Às 18h45 desta quarta-feira (30), o jornal El Mundo traz o assunto na capa, enquanto no El País, cujo slogan é “El periódico global”, as notícias mais bem posicionadas tem relação com a eleição presidencial nos Estados Unidos. No El País, a matéria principal, intitulada “95 muertos y decenas de desaparecidos en la peor gota fría del siglo en España”, destaca o mesmo fato do El Mundo, o número já confirmado de mortos: “Al menos 95 muertos y decenas de desaparecidos por la DANA”. 

O El Mundo traz como primeira retranca outro fato que certamente irá merecer farta cobertura nos próximos dias: a demora do acionamento do sistema de alerta de Valência. O jornal também dá destaque para os motivos pelos quais a DANA foi tão violenta. A notícia traz análises de meteorologistas e destaca-se o seguinte trecho: “En este episodio, ha influido también un factor muy vinculado al cambio climático: la temperatura del agua del mar, pues en la costa de Valencia estaba entre un grado y dos por encima de la media en esta época del año. ‘No es una anomalía tan significativa como la de otros momentos del año, pero sin duda ha contribuido a que haya habido más lluvia’, afirma.” 

O El País aborda o fato em uma retranca de dois parágrafos na qual afirma que o Mediterrâneo mais quente que o normal, para esta época do ano, é a chave para a virulência das chuvas. Em nota, a Metsul Meteorologia analisou dados da chuva na comunidade espanhola de Valência, comparou-os aos do desastre no Rio Grande do Sul e concluiu que a precipitação em pontos de Valência superou o acumulado em 24 horas de qualquer cidade gaúcha no evento do fim de abril e o começo de maio. Mas, segundo a nota, “se considerado o período prolongado de instabilidade que atingiu o Rio Grande do Sul os volumes foram parecidos ou o dobro do que choveu em um só dia na região mais castigada da Espanha”.

Os dois veículos trazem reportagens descritivas sobre os impactos da DANA em diferentes localidades, medidas imediatas das autoridades públicas, serviços disponíveis aos atingidos, previsão meteorológica para as próximas horas e postagens de redes sociais feitas por moradores. Do ponto de vista da crítica da cobertura jornalística, seriam de grande valia estudos mais aprofundados para comparar o trabalho desenvolvido pelos jornais e jornalistas espanhóis com o dos congêneres do Rio Grande do Sul, a partir das premissas do jornalismo ambiental.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Sul21 e o jornalismo a serviço da pauta ambiental nascida no cotidiano

Print screen de tela


Por Míriam Santini de Abreu

O site de notícias independente Sul21 publicou, às vésperas do primeiro turno das Eleições 2024, a série de reportagens “Raio-X das Periferias” sobre as principais demandas de moradores dos quatro bairros mais populosos de Porto Alegre para o período eleitoral. A iniciativa, que incluiu os bairros Rubem Berta, Restinga, Sarandi e Lomba do Pinheiro (veja em bit.ly/3Ny1G25), é um exemplo significativo para relacionar cotidiano, espaço e pauta ambiental em tempos nos quais a população elege seus representantes na dita (e tão limitada) democracia representativa.  

No senso comum, cotidiano é o que ocorre todos os dias, o banal, o corriqueiro, o repetitivo. Mas nele também nasce a ruptura, a possibilidade de transformação social. O novo, afinal, emerge no cotidiano, e é no espaço que esse cotidiano, em sua riqueza e miséria, se realiza. As transformações pelas quais passa o jornalismo como fazer profissional e também como negócio, porém, afastam o jornalista do cotidiano e do espaço. Redações cada vez mais enxutas levam a coberturas magras, parte delas feitas por telefone ou redes sociais, levando portais noticiosos a terem “cara” de vitrine para boletim de ocorrência.

Em sentido oposto, a série do Sul21 traz diversidade de fontes e descrições expressivas do cotidiano e do espaço geográfico dos quatro bairros, onde aparece a errância de populações continuamente expulsas ou em busca de melhores condições de vida, situação agravada pela penosa tentativa de recuperação depois das enchentes catastróficas que atingiram o Rio Grande do Sul.

A debilidade dos serviços públicos, as dificuldades de locomoção, a falta de opções de lazer – todas elas relacionadas à pauta ambiental – vão sendo apresentadas ao longo das entrevistas para expor o abandono do poder público, as promessas que não se cumprem, as tentativas de organização popular para superar as carências do cotidiano. Aparecem ainda as conquistas via Orçamento Participativo, mas também as críticas aos limites deste instrumento de liberação de recursos públicos.

A série utiliza dados do Atlas de Vulnerabilidade Social desenvolvido no curso de Geografia da UFRGS, informação do mundo acadêmico a serviço da interpretação jornalística do espaço geográfico. Na reportagem sobre o bairro Rubem Berta, aparece menção ao jornal comunitário local Fala Cohab, a revelar o papel ainda vivo da comunicação comunitária. A série de reportagens “Raio-X das Periferias” é mais uma a confirmar o importante papel do Sul21 no jornalismo gaúcho e regional. Que as vozes que carrega em seus textos tão bem encaixados sejam ouvidas e levadas em conta por quem comandar Porto Alegre pelos próximos quatro anos. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Trajetórias: Sérgio Luís Boeira

Foto: arquivo pessoal

O blog tem novidade: a apresentação de trajetórias de jornalistas com atuação em Santa Catarina. A primeira é a de Sérgio Luís Boeira, atualmente professor e doutor em Ciências Humanas (UFSC, 2000). A pedido, ele fez uma Apresentação resumida sobre suas atividades e cedeu imagens de artigos produzidos em diferentes veículos de comunicação. Confira: https://jornalismoambientalsc.blogspot.com/p/trajetorias.html

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Política, jornalismo e olhos de libélula

 


Por Míriam Santini de Abreu

Há poucos dias, caminhando nas proximidades da Câmara de Vereadores de Florianópolis, ouvi uma conversa. Um rapaz perguntava a uma moça sobre um vereador:

– Mas ele é de que bairro?

Isso de vereador “de bairro” deve ser herança das Intendências. E quem acompanha a Câmara de Florianópolis nota que a política ali se move pelo bairro. Não é por acaso o desconhecimento, desinteresse, estupidez e má-fé da maioria dos legisladores pelos grandes temas da cidade. Só tratam da vida do bairro, onde muitas vezes reina a troca de favores por votos. Vereador “da cidade” são poucos, aqueles de olhos de libélula para ver a cidade de cabo a rabo.

Daí nasce a reflexão para hoje: falar de “meio ambiente”, “desenvolvimento sustentável” e “justiça climática” agora é moda em campanhas eleitorais da esquerda à direita. É “politicamente correto” incluir o tema nas propostas para o Executivo e o Legislativo. Mas há que recordar uma reflexão do geógrafo Milton Santos: o discurso sobre a coisa, no nosso tempo, tomou o lugar da coisa. Nas redes sociais é pior ainda.

Então o caminho para ver o que está atrás do discurso é a práxis. Ação na vida cotidiana orientada por conhecimento. Um critério: onde estavam e como se movimentaram os corpos desses discursos nas grandes lutas da cidade para defendê-la dos vendilhões a serviço do lucro de poucos?

Algumas grandes lutas: 1) o Levante do TAC (Teatro Álvaro de Carvalho), em 2010, contra a proposta de revisão do Plano Diretor do então prefeito Dário Berger; 2) a mobilização popular contra a instalação do Estaleiro da OSX em Biguaçu; 3) a irrupção da Ocupação Amarildo de Souza no Norte da Ilha, gerando inédita criminalização jurídico-midiática; 4) a mobilização popular em 2013 e 2014 mais uma vez em protesto contra as mudanças no Plano Diretor na gestão do então prefeito César Souza Júnior, sob forte repressão policial; 5) a luta pela Ponta do Coral 100% Pública e contra os emissários submarinos e seus impactos ambientais, assim como as grandes marinas, os “engordamentos” de praias e a despoluição de baías, que consumiu milhões para nada; 6) a defesa das lagoas, rios, águas marinhas, manguezais, restingas, áreas de preservação permanente e unidades de conservação; 7) a mobilização popular a partir de 2020 mais uma vez em protesto contra as mudanças no Plano Diretor na gestão do então prefeito Gean Loureiro e depois de seu vice e hoje prefeito, Topázio Neto, mudança esta sacramentada em melancólica votação na Câmara de Vereadores em 2023.

A falta de memória beneficia quem some com o corpo e aparece com o discurso. O jornalismo local, a serviço e a soldo dos interesses da atual gestão da prefeitura, joga a pá de cal na possibilidade de confrontar as candidaturas. Perguntas que não perguntam, respostas que nada dizem, encenação de jornalismo e de política.

Uma aula sobre como fazer? A edição de 26/27 de abril de 1986 no Jornal de Santa Catarina, o velho Santa impresso, que encontrei graças à jornalista Roseméri Laurindo, que entrevistamos para o projeto Repórteres SC, da equipe da Pobres & Nojentas. Ela guardou, entre outras, uma página dupla do standard, sem anúncio, com o seguinte título e linha de apoio: “OCUPAÇÃO DO SOLO: em debate as garantias de preservação da Ilha”. Ali está a síntese de uma mesa-redonda organizada pelo Santa, de duas horas e 30 minutos, para debater a regulamentação do chamado Plano Diretor dos Balneários e o processo de urbanização da capital. Foram nove convidados de diferentes campos de atuação e pontos de vista.

Em apenas duas páginas, um instigante retrato da cidade naquele período, ainda mais hoje, quando a prefeitura e o empresariado são as fontes predominantes a desfilar no jornalismo local revirando a cidade, plantando cimento e falando em “inclusão” e “desenvolvimento sustentável”. Destaque para as perguntas da jornalista: inteligentes, provocativas, capazes de instigar os entrevistados a efetivamente se expor, olho no olho, na mesa do jornal e na edição depois impressa. Roseméri e o Santa fizeram outras dessas, uma delas sobre a falta de moradia em Santa Catarina nos anos 1980 e com a qual estou escrevendo um artigo. Bah, Rose!

A eleição se alimenta da desconexão da política com a vida cotidiana, real, concreta. Desconexão que também é a marca do que se pratica como jornalismo hoje. Há que perseguir o Jornalismo. O Jornalismo que dá a volta nas coisas para nelas flagrar o mal dito no discurso. O escritor José Saramago ensina isso no documentário “Janela da Alma”. Ele fala sobre a coroa mui apreciada do Camarote Real no Teatro de Lisboa. De longe e de frente, enorme, dourada, magnífica. Mas, vista de trás, oca, repleta de pó e teias de aranha. Logo ele aprendeu uma lição da qual nunca se esqueceu: “Para conhecer as coisas, há que dar-lhes a volta. Dar-lhes a volta toda."

Sim! Político “da cidade” tem que ter olhos de libélula. E jornalista também!



sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Artigo analisa as mazelas da modernização catarinense a partir do trabalho da jornalista Elaine Borges


Mais um belo achado adicionado à lista de pesquisas sobre jornalismo ambiental em Santa Catarina. É o artigo de Isadora Muniz Vieira intitulado “A outra face da modernização de Santa Catarina: mazelas de catarinenses retratadas por Elaine Borges em O Estado (1972)”. Mesmo que a designação jornalismo ambiental tenha surgido depois dos trabalhos mencionados, vale registrar que Elaine Borges foi pioneira no olhar cuidadoso para as mazelas na relação entre sociedade e natureza em Santa Catarina.

O artigo, segundo o Resumo, "objetiva analisar representações de Santa Catarina durante as transformações do jornalismo brasileiro, em nível nacional e local, a partir das matérias da jornalista gaúcha Elaine Borges para o jornal O Estado. Através de sua trajetória profissional, a jornalista criou narrativas sobre Santa Catarina em diferentes periódicos de circulação regional e nacional num contexto que o estado se modernizava e investia em turismo a partir de iniciativas públicas e privadas. No O Estado, diferentemente de outros periódicos, a jornalista abordou o momento de modernização catarinense por outro viés, dando maior atenção aos sujeitos pertencentes às classes sociais historicamente marginalizadas que continuaram excluídas durante o processo. Assim, a intenção é analisar as matérias publicadas pela jornalista no jornal de junho a outubro de 1972, percebendo de que forma a modernização do estado e os seus habitantes foram por ela representados".

Pesquisando como O Estado havia coberto, em junho de 1972, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente, ou Conferência de Estocolmo (saiu uma notícia breve), encontrei um texto de Elaine Borges, com cinco fotografias de Orestes Araújo, publicado em 10 de junho daquele ano, merecedor de chamada e foto na capa, intitulado “As famílias que vivem do lixo”. São nove parágrafos impecáveis. Lidos mais de 50 depois, têm a qualidade do eterno acontecer dos grandes textos jornalísticos. 

A trajetória de Elaine Borges também está contada na dissertação de mestrado de Isadora Muniz Vieira. Ali descobri que aquele foi primeiro texto da jornalista para O Estado. Ainda em 1972, para o mesmo jornal, ela fez reportagens, como enviada especial, sobre a viagem dos primeiros colonos de Santa Catarina para a Amazônia. Esse material é analisado no artigo de Isadora acima mencionado. Precioso! 

Referências

VIEIRA, I. M. A Ilha da Magia de Elaine Borges: um passeio pelo passado de Florianópolis através da trajetória da jornalista (1972 - 1999). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História, Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Florianópolis, 2019.

VIEIRA, I. M. A outra face da modernização de Santa Catarina: mazelas de catarinenses retratadas por Elaine Borges em O Estado (1972). Boletim Historiar, [S. l.], v. 6, n. 3, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/historiar/article/view/12651. Acesso em: 9 ago. 2024.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

20 anos de pesquisa sobre o discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável

 



Míriam Santini de Abreu

Há 20 anos defendi, no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), minha dissertação, intitulada “O discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável: uma interpretação sob o ponto de vista geográfico”, com orientação do professor Nazareno José de Campos. Ela virou livro pela editora da mesma universidade, com o título “Quando a palavra sustenta a farsa: o discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável”.

Percorri três diferentes áreas de conhecimento, Geografia, Jornalismo e Análise de Discurso, para a pesquisa. Abordei a origem do conceito, ligando-o aos debates sobre a relação entre sociedade e natureza no Brasil e, especificamente, em Santa Catarina. Para isso, trabalhei com a categoria de formação socioespacial, aliada ao entendimento do meio geográfico atual como um meio técnico-científico-informacional, no caminho da obra do geógrafo Milton Santos. No jornalismo, situei historicamente a apropriação da problemática ambiental pelos meios de comunicação, na perspectiva do jornalismo como forma de conhecimento da realidade cristalizada no singular, como ensina o mestre Adelmo Genro Filho. Para fazer a análise dos dois veículos de comunicação selecionados, o JB Ecológico (Jornal do Brasil) e o AN Verde (então encartado em A Notícia), optei pela linha francesa da Análise do Discurso.

Com a pesquisa, concluí que o discurso em geral sobre a natureza é, fundamentalmente, um discurso político, de poder, construído também a partir do espaço. Com base nessas relações de poder, o discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável produz efeitos de sentido predominantemente empresariais, mesmo quando o sujeito-jornalista se propõe a formular um discurso sobre a preservação (intocabilidade) da natureza.

Observa-se que, de uma forma ou de outra, diferentes formações socioespaciais deixam vestígios no discurso jornalístico. Esses vestígios evocam manifestações concretas (desmatamento, poluição) da relação entre sociedade e natureza. O espaço geográfico, porém, é interpretado principalmente a partir da ótica dos atores hegemônicos ou do discurso da ciência. Sobra pouca ou nenhuma possibilidade para que outros atores sociais produzam suas próprias interpretações sobre os conflitos que se estabelecem nos diferentes lugares onde os discursos jornalísticos são formulados.

A dissertação está em https://pergamum.ufsc.br/acervo/203417

De lá para cá, aprofundei no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC minhas pesquisas sobre o espaço no jornalismo. Defendi a tese há quase cinco anos, em agosto 2019.

Hoje, uma nova farsa espreita, e 20 anos atrás eu já a citava: os tais mercados de carbono. O tema é ausente na mídia de Santa Catarina, mas, em veículos nacionais, está aparecendo com mais frequência.

Temas, como diria o Senhor Spock, fascinantes!

Caderno de trabalho "(Re)existências criativas a partir da comunicação e da cidade"

Por Míriam Santini de Abreu, jornalista O segundo Caderno de Trabalho do GT15 – Comunicação e Cidade, intitulado "(Re)existências criat...