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Por Míriam Santini de Abreu
O site de
notícias independente Sul21 publicou, às vésperas do primeiro turno das
Eleições 2024, a série de reportagens “Raio-X das Periferias” sobre as principais
demandas de moradores dos quatro bairros mais populosos de Porto Alegre para o
período eleitoral. A iniciativa, que incluiu os bairros Rubem
Berta, Restinga, Sarandi e Lomba do Pinheiro (veja em bit.ly/3Ny1G25), é um exemplo significativo para
relacionar cotidiano, espaço e pauta ambiental em tempos nos quais a população
elege seus representantes na dita (e tão limitada) democracia
representativa.
No senso comum, cotidiano é o que
ocorre todos os dias, o banal, o corriqueiro, o repetitivo. Mas nele também
nasce a ruptura, a possibilidade de transformação social. O novo, afinal,
emerge no cotidiano, e é no espaço que esse cotidiano, em sua riqueza e
miséria, se realiza. As transformações pelas quais passa o jornalismo como
fazer profissional e também como negócio, porém, afastam o jornalista do
cotidiano e do espaço. Redações cada vez mais enxutas levam a coberturas
magras, parte delas feitas por telefone ou redes sociais, levando portais
noticiosos a terem “cara” de vitrine para boletim de ocorrência.
Em sentido oposto, a série do
Sul21 traz diversidade de fontes e descrições
expressivas do cotidiano e do espaço geográfico dos quatro bairros, onde
aparece a errância de populações continuamente expulsas ou em busca de melhores
condições de vida, situação agravada pela penosa tentativa de recuperação
depois das enchentes catastróficas que atingiram o Rio Grande do Sul.
A debilidade dos
serviços públicos, as dificuldades de locomoção, a falta de opções de lazer –
todas elas relacionadas à pauta ambiental – vão sendo apresentadas ao longo das
entrevistas para expor o abandono do poder público, as promessas que não se
cumprem, as tentativas de organização popular para superar as carências do
cotidiano. Aparecem ainda as conquistas via Orçamento Participativo, mas também
as críticas aos limites deste instrumento de liberação de recursos públicos.
A série utiliza
dados do Atlas de Vulnerabilidade Social desenvolvido no curso de Geografia da
UFRGS, informação do mundo acadêmico a serviço da interpretação jornalística do
espaço geográfico. Na reportagem sobre o bairro Rubem Berta, aparece menção ao
jornal comunitário local Fala Cohab,
a revelar o papel ainda vivo da comunicação comunitária. A série de reportagens
“Raio-X das Periferias” é mais uma a confirmar o importante papel do Sul21 no
jornalismo gaúcho e regional. Que as vozes que carrega em seus textos tão bem
encaixados sejam ouvidas e levadas em conta por quem comandar Porto Alegre
pelos próximos quatro anos.